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Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade, no poema ‘Memória’.

Como deixar passar em branco, sem palavras, a data de Finados?

2020 está sendo o ano de tantas mortes no Brasil e no mundo!

No Brasil, quase 160.000 mortes; no mundo, quase 1.200.000 mortes.

Os enlutados são as outras vítimas da COVID, e cada vez mais nos chegam notícias de pessoas próximas de nós, acometidas pela pandemia.

Para cada morto, há, em média, de 6 a 10 pessoas muito próximas, entre familiares e amigos, impactadas pela dor do luto.

O que frustra e complica ainda mais a recuperação emocional após a perda, além da morte solitária do ente querido, são os enterros sem rituais, a falta de abraços e do apoio do círculo mais próximo, o remorso, a culpa, a ansiedade, a amargura, a angústia, a raiva, o sentimento de impotência, entre outras tantas dores emocionais que vêm em acréscimo.

Há as perdas de antes e de durante a pandemia de pessoas não vítimas da COVID 19.

Em Finados lembramos nossos entes queridos com saudades.

Eu particularmente tenho comigo, para reler nessa ocasião e noutras de muito sofrimento, o pequeno livro de Anselm Grün, “Até nos revermos no céu”.

Do mesmo autor, em momentos de muita dor e do passamento dos meus, lembro que li também “O livro das respostas”, que trata de grandes temas da vida para os quais as ciências mais especializadas não nos dão respostas seguras e completas ainda, mas nós sentimos necessidade de refletir sobre eles.

Indico ainda o “Doze faces do luto”, de Charlie Walto, que também ajuda na difícil jornada de volta à vida normal.

O pensamento atribuído a Santo Agostinho, aquele que começa com “A morte não é nada” me consola, e eu também indico essa reflexão.

A meditação pode ajudar a todos, também os mais céticos, e a oração ajuda os que buscam conforto espiritual religioso.

Tenho para mim o pensamento de que as pessoas queridas tenham, possam e devam ter um lugar em nossos corações.

Pode ser, para alguns de nós, muito alentador e edificante pensar que as pessoas e situações que nos deixam saudade terminaram o seu ciclo aqui, mas estão muito vivas e podem continuar vivas dentro de nós.

Meus pais têm um lugar em meu coração. Meus queridos pais têm cada qual um lugar dentro de mim, e por isso seguem comigo.

As lembranças dos bons momentos com eles me dão força, coragem e vida, e sentir gratidão, ser grata e honrá-los porque me transmitiram a vida me faz feliz.

Gratidão, Paz

A vida que eles receberam, eles a transmitiram a mim, e eu sou grata também por ter transmitido a vida aos meus filhos muito amados.

Esse princípio de ser grata e honrar os pais me são lembrados por Bert Hellinger.

Dele me vem a confirmação do ideal de não excluir, mas lembrar, dar um lugar no coração aos que amo e amei, para que eu seja feliz e bem sucedida em todas as áreas da minha vida, ao que ele acrescenta, e também adoto para mim, que os meus pais são os grandes, eu sou a pequena, que não devo julgá-los nem condená-los e que não devo mesmo julgar e condenar ninguém nessa vida, para não me emaranhar ou causar complicações para mim e os do meu sistema familiar ou de outra ordem relacional.

Esse preceito me orienta na vida e no meu trabalho como terapeuta.

A ideia de que os vínculos com pessoas que amo e que hoje estão ausentes de minha vida são eternos muito me conforta.

Lembrar nos momentos de oração e de meditação, trazer bem vivos por alguns momentos à consciência os que se foram é muito alentador para mim.

Isso mesmo eu posso fazer também com pessoas vivas que me foram muito próximas um dia e que hoje não estão mais presentes fisicamente em minha vida: lembrar, saber que o vínculo permanece, que posso emanar votos e desejos de que estejam bem e que delas posso receber reciprocamente essas emanações; pensar que essas pessoas têm e sempre terão também um lugar em meu coração me faz seguir mais fortalecida com a vida que tenho hoje.

Pensar assim me traz a consciência de estar em comunhão com todos os seres, vivos ou mortos, que amo e amei um dia.

Saudades. Tempo de Orar, Meditar, Refletir

Sobre os que já não estão neste plano, aprendi e entendi que eles não querem que eu os siga e que posso dizer mentalmente a cada um deles: “Você se foi; sinto muito. Eu sei que você não deseja que eu o siga e que eu vá agora. Eu vou ficar por mais um tempo; não terminei ainda minha missão. Eu lhe sou muito grata. Você tem um lugar no meu coração e em minha lembrança”.

Assim é que estou em paz com eles e posso seguir a minha vida, honrando e respeitando também os que convivem comigo agora.

Afinal, os que se foram partiram apenas antes de nós.

Eu sei que há muitos momentos em que não é fácil nem rápido pensar assim; até Jesus chorou a morte e a ausência de Lázaro. Também, Ele viu o sofrimento e teve compaixão das irmãs do amigo que havia partido.

É humano sofrer a dor do luto; no entanto é saudável elaborar e administrar essa dor dentro de nós, superar o luto, para poder seguir em paz com a vida, e nisso também há a bênção e a força que nos vem dos céus e do mais íntimo de cada um de nós.

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